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Clube Filatélico de Portugal

Santo António de Lisboa ou de Pádua PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por João Pinheiro da Silva   
Quinta, 15 Outubro 2009 11:40

 

 



Santo António de Lisboa ou de Pádua

 

                                                                                                                                                          Pinheiro da Silva
João Pinheiro da Silva

 

 

            O título acima apresentado está inscrito numa polémica que, pelos vistos, não terá fim à vista. 

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Fig. 1 – Afinsa 557 – Yvert 568 * 1933 – Santo António com sobretaxa * Obliteração ordinária de Lisboa 18.09.1933 (St.º António com Menino Jesus)

                Santo António (Fig. 1), o mais popular dos “Santos Populares” que a tradição consagra e o povo festeja, nasceu em Lisboa, junto à Sé (Fig. 2), no ano de 1195. Era filho de Martim de Bulhões e de Teresa Taveira, de que recebeu o nome de Fernando de Bulhões.

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Fig. 2 – Afinsa 554 – Yvert 565 * Santo António com sobretaxa * Obliteração ordinária de Lisboa 18.09.1933 (Sé de Lisboa, onde estudou)

                Os franciscanos chegaram a Portugal em 1217 e, neste mesmo ano, abriram casas em Lisboa, Alenquer e Guimarães. Fernando mudou o nome para António, frequentou a escola da Sé olissipolense, pelos vinte anos de idade, professou a vida religiosa entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho no Mosteiro de São Vicente de Fora. Ao fim de dois anos mudou-se para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Fig. 3), onde foi ordenado sacerdote. Em 1220 tornou-se frade franciscano no Ermitério de Santo Antão dos Olivais, em Coimbra (Fig. 4).

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 Figura 3                                                                               Figura 4
Fig. 3 – Afinsa 558 – Yvert 569 * Santo António c/ sobretaxa * Obliter. ordinária de Coimbra 10.11.1933 (Igreja de St.ª Cruz, onde estudou)
Fig. 4 – Afinsa 575 – Yvert 584 * 1935 – Sé Velha de Coimbra * Obliteração ordinária de Coimbra 20.07.1937

                O suplício dos celebrados mártires de Marrocos inspirou-lhe tal entusiasmo pela nova milícia religiosa dos frades mendicantes de São Francisco de Assis, que levou a deixar a opulenta Ordem a que pertencia. Perante isto, vestiu em 1220, o humilde burel dos franciscanos (Fig. 5), o que determinou ir pregar para África, ansiando por conquistar, também a palma do martírio. Quando atravessava o mar, dirigindo-se para África, foi Santo António atacado por enfermidade que o obrigou a desistir da empresa. Mudou o navio de rumo, dirigindo-se de novo para a península hispânica, mas um temporal, que sobreveio, arrojou-o às costas sicilianas, de onde, aproveitando o ensejo se dirigiu a Itália para assistir ao Capítulo Geral, que se realizava em 23 de maio de 1221, convocado por São Francisco, fundador da sua Ordem.

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Fig. 5 – Afinsa 534 – Yvert 550 * 7.º Centenário da sua morte * Obliteração ordinária de Lisboa 13.06.1931 (O Santo com o Menino Jesus)

                O bem-aventurado patriarca ordenou-lhe que pregasse e lesse Teologia diante dos seus confrades. Assim o fez, o que lhe permitiu revelar perante os que o escutavam o seu profundo talento. Passou então a pregar em Itália e em França e a ensinar Teologia) o primeiro que o fez na sua Ordem) nas escolas franciscanas de Bolonha, Montpellier e Toulouse. Em 1227 foi nomeado ministro provincial no norte de Itália, continuando a sua actividade de pregador eloquente e de professor de Teologia em Pádua.

                Era tanta a fama da sua virtude e do seu mérito que logo no ano seguinte ao da sua morte foi canonizado pelo Papa Gregório IX, Foi declarado “Doutor da Igreja” em 6 de Janeiro de 1946. Este título honorífico foi-lhe concedido pelo Papa Pio XII como distinção pelo valor de um membro da Igreja Católica, que se notabilizara pela santidade de vida, ortodoxia doutrinal e ciência sagrada.

                Santo António de Lisboa, ou de Pádua, foi o primeiro português a granjear projecção universal pela sua cultura totalmente adquirida em Portugal o que faz dele o autor mais importante da pré-escolástica franciscana, sobretudo pela sua qualidade de taumaturgo e levou a que fosse designado o “santo de todo o mundo”.

                Tanto a pintura (Fig. 6), como a escultura, assim como as artes populares e erudita, têm inúmeras vezes tomado Santo António como fonte de inspiração. Padroeiro secundário de Portugal e da cidade de Lisboa (o primeiro é S. Vicente), é festejado em 13 de Junho (dia da sua morte).

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Fig. 6 – Afinsa 2280 – Yvert 2056 * 1995 – 8.º Centenário do seu nascimento * Obliteração ordinária de Vila Viçosa 13.06.1995 (Quadro de Vieira Lusitano – Palácio Ducal).

                Desconhece-se quando foi construída a primeira igreja dedicada ao culto de Santo António de Lisboa. Sabe-se, todavia, que o local é o mesmo onde fora a casa dos pais do Santo e onde este nascera, em finais do século XII. Hoje só subsiste uma Pia Baptismal (Fig. 7). Era certamente um edifício modesto em relação à sua importância. Mais tarde D. João II empreendeu edificar novo templo, que foi concluído no reinado de D. Manuel I. Pelas descrições que chegaram até hoje, sabe-se ter sido monumento sumptuoso, enriquecido no decurso dos séculos XVII e XVIII, com valiosas obras de talha e ricos embrechados à italiana, de que nos ficaram poucas notícias e raros vestígios.

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Fig. 7 – Afinsa 532 – Yvert 548 * 1931 – 7.º centenário da sua morte * Obliteração ordinária de Lisboa 13.06.1931 (Pia Baptismal da Sé onde foi baptizado)

                O monumento que como é natural, já não se encontrava em bom estado de conservação, foi completamente destruído pelo terramoto de 1755, escapando apenas do cataclismo, a cripta, situada por baixo da actual capela-mor e que uma tradição diz serem os restos da casa onde nasceu o Santo.

                O actual templo, foi edificado à custa de esmolas provenientes de donativos de todo o País, mas, principalmente, da população de Lisboa e da receita recolhida com base no célebre peditório de “um tostão para o Santo António” feito pelas crianças nas ruas da capital, e que se transformou, com o tempo, numa tradição que chegou até aos nossos dias (Fig. 8).

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Fig. 8 – Afinsa 2486 – Yvert 2243 * 1998 – Europa – Santos Populares * Obliteração do 1.º dia Lisboa 21.05.1998 (Motivo alegórico, com balões e cravos)

                Dentro dos recursos ao nosso alcance, tentaremos documentar a vida e obra do Taumaturgo, nos seus aspectos de missionário, pregador e filósofo que tomou, entre nós, aspectos essencialmente populares, com prevalência das facetas de Santo milagreiro e casamenteiro, ou mais alusivas a oficial do exército português (Fig. 9). Esta imagem de Santo António, que teve a patente de tenente-coronel do nosso exército, acompanhou o heróico Regimento de Infantaria 19, de Cascais, nas famosas campanhas da Guerra Peninsular. Encontra-se no Museu Militar de Lisboa, onde realizamos um postal-máximo, com o carimbo da Estação dos CTT de Cais de Soldado (feliz coincidência), por ser a estação postal mais próxima desse Museu, no dia 25 de Maio de 1982.

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Fig. 9 – Afinsa 1526 – Yvert 1512 * 1981 – 750.º aniversário da sua morte * Obliteração ordinária de Lisboa 25.05.1982 (Imagem com a patente de tenente-coronel)

                Baseado nessa intenção, reproduzimos uma colecção de imagens, representando Santo António com o Menino Jesus ao colo, geralmente acompanhado das demais insígnias, o livro e a haste de açucenas, em madeira pintada ou estofada e em barro (Fig. 10), com exemplares classificados desde o século XVII até à actualidade. Duma forma geral são obras de sabor popular, alguns exemplares de marfim ou madeira e marfim (Fig. 11), com influência indo-portuguesa.

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                                                               Figura 10                                                                              Figura 11

Fig. 10 – Afinsa 2282 – Yvert 2058 * 1995 – 8.º Centenário do seu nascimento * Obliteração comemorativa de Estremoz 01.05.1996 (Imagem de barro de Estremoz)

Fig. 11 – Afinsa 2281 – Yvert 2057 * 1995 – 8.º Centenário do seu nascimento * Obliteração de 1.º dia Lisboa 13.06.1995 (Imagem de madeira e marfim indo-portuguesa)

 

                Um painel de azulejos, representando o “Milagre de Santo António pregando aos peixes”, é dos princípios do século XVIII e encontra-se no Museu Antonino em Lisboa (Fig. 12).

                Existe também uma pintura de “Santo António pregando aos peixes” da escola portuguesa do século XVI, que está no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa (Fig. 13).

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                                                        Figura 12                                                              Figura 12   
Fig. 12 – Afinsa 1523 – Yvert 1512 * 1981 – 750.º aniversário da sua morte * Obliteração ordinária de Lisboa 21.04.1982 (Sermão pregando aos peixes – Azulejos)
Fig. 13 – Afinsa 118 – Yvert 116 * 1895 – 7.º Aniversário do seu nascimento * Obliteração ordinária registada Funchal 22.06.1895 (Inteiro postal pregando aos peixes)

                Um monumento ao Santo, inaugurado em 4 de Outubro de 1972, com estátua de bronze, foi implantado na Praça de Alvalade em Lisboa. O escultor António Duarte escolheu para a estátua a atitude de pregador, rejeitando, deste modo, a tradicional imagem do Santo com Jesus ao colo (Fig. 14).

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Fig. 14 – Afinsa 1524 – Yvert 1513 * 1981 – 750.º Aniversário da sua morte * Obliteração ordinária Lisboa 07.12.1981 (Sua estátua em Alvalade – Lisboa)

                Vários países homenagearam filatelicamente Santo António. Citamos alguns: Brasil, Vaticano e principalmente Itália, pois este nosso santo morreu em Arcella, próximo de Pádua em Itália em 13 de Junho de 1231, de doença súbita, no local onde passara a última época da sua vida. Por esse motivo a Itália emitiu uma belíssima série de selos em 1931. Reproduzimos dois deles em postais-máximos (Fig. 15) com a chegada do seu corpo moribundo àquela localidade; no outro identifica a bela Basílica de Pádua, dedicada a Santo António (Fig. 16).

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                                                       Figura 15                                                                                                     Figura 16
Fig. 15 – Ivert 277 * 1931 – 7.º Centenário da sua morte * Obliteração ordinária de Pádua 13.06.1931 (Seu transporte já moribundo)
Fig. 16 – Yvert 276 * 1931 – 7.º Centenário da sua morte * Obliter. ordinária de Pádua 13.06.1931 (Basílica de Santo António em Pádua)

                No local onde morreu, tomaram os estrangeiros a sua posse, desejando apossarem-se das nossas glórias. Aproveitando-se do facto, passaram a chamar-lhe Santo António de Pádua, em vez de Santo António de Lisboa, dando a nacionalidade italiana a um santo que é legitimamente português.

                Santo António foi um vulto que honrou e honra pelo seu talento e virtudes, o nome de Portugal em terra estranha.

 

 Bibliografia:

                Prof. A. H. Oliveira Marques

                Editorial Verbo

                Círculo de Leitores

Colaboração nos textos:

                Mário Nobre dos Santos

Actualizado em Domingo, 15 Novembro 2009 19:12
 

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