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Clube Filatélico de Portugal

Monarquia do Norte PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Pedro Marçal Vaz Pereira   
Segunda, 01 Setembro 2003 01:00

 

Monarquia do Norte

A pequena Guerra Civil entre Monárquicos e Republicanos

onde o Reino da Traulitânia vigorou durante 3 semanas

Pereira   

Pedro Marçal Vaz Pereira

ANTECEDENTES E CAUSAS

Com a morte de Sidónio Pais, assassinado na estação do Rossio em Dezembro de 1918, o país tinha perdido de novo a autoridade e a tranquilidade, porque há muito ansiavam as suas gentes.

Paiva Couceiro, ilustre general português, convicto monárquico encontrava-se por essa altura retirado no Palácio dos Condes da Ribeira, que ficava para os lados de Santo Amaro. Era precisamente neste palácio que o “ Comandante “, nome por que era tratado pelos seus amigos e apoiantes, recebia todo um oficialato cansado da intriga política e um conjunto de jovens políticos, que procuravam uma nova ordem.

Foi neste ambiente que Paiva Couceiro idealizou e iniciou a sua revolução monárquica. Paiva Couceiro não tinha como fim absoluto a restauração da monarquia através de um golpe militar. (Fig.1 e 2)

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                                  Fig. 1 e 2 – Paiva Couceiro, grande General, colonialista e convicto monárquico

Em face da agitação que predominava em todo o país e perante o desgoverno da 1ª República, Paiva Couceiro batia-se por um plebiscito em que democraticamente o povo determinasse qual o regime em que pretendia ser governado, monarquia ou república. Todo este movimento era impulsionado pela Liga Monárquica, que estava sedeada naquela altura na Travessa da Boa hora no número 43.

Paiva Couceiro iniciou então vários encontros com altas patentes militares no Porto e em Lisboa, procurando ajuizar da melhor oportunidade para a realização de tal plebiscito e na sua impossibilidade de um golpe que impusesse a ordem no país e se este devia ser feito sem o apoio do rei D. Manuel II, que se encontrava exilado em Londres desde a implantação da República.

Todas estas movimentações davam-se ainda em pleno consulado sidonista, embora o oficialato que se encontrava nas unidades de Lisboa, reconhecendo a gravidade da situação e o valor militar de Paiva Couceiro, tinham-se sempre declarado fieis a Sidónio Pais e à sua politica presidencialista, seguida mesmo após a sua morte. O plebiscito ansiado por Paiva Couceiro tinha na realidade muito poucos apoiantes. A monarquia tinha que esperar.

Com a morte de Sidónio Pais, Paiva Couceiro pensou que teria a sua vida facilitada, porém os oficiais continuavam a mostrar a sua admiração pelo velho general, mas fieis ao princípio de não se envolverem numa revolta monárquica.

Perante esta situação Paiva Couceiro chega a abdicar do seu projecto, endereçando-o a alguns correligionários, continuando contudo os seus artigos sobre o plebiscito no jornal “ PÁTRIA “ assinando-o com “ H “. (Fig.3)

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Fig. 3 – Cabeçalho do jornal “PATRIA” de raiz monárquica

Entretanto as movimentações de tropas leais à República e à Monarquia faziam-se declaradamente e, as reuniões conspirativas, de ambas as partes também. É preciso não nos esquecermos que apesar de Sidónio Pais ter sido morto a ditadura se mantinha com as Juntas Militares a controlar o país e com as prisões cheias de políticos ou com os mais importantes exilados no estrangeiro.

O comandante de cavalaria 9 e mais alguns oficiais eram de opinião que se devia “romper com Lisboa e formar-se no norte um governo “. A Junta Militar do Norte era de todas as juntas aquela onde se foram concentrando as maiores forças monárquicas, que em Janeiro de 1919 iniciariam um golpe, não para imporem um plebiscito, mas essencialmente para imporem uma “ RESTAURAÇÃO”, a qual tinha claro apoio de Paiva Couceiro, que passou a residir no Porto.

“ Agora ou nunca “ ia passando de boca em boca no Norte de Portugal, sem que a Junta Militar se preocupasse muito em controlar ou neutralizar os conspiradores. Paiva Couceiro continuava a receber no Porto os conspiradores que vinham de todos os quadrantes da sociedade portuguesa da época.

O “ Q.G.M “ (Quartel General Monárquico) instalou-se no Hotel Universal do Porto, tendo sido aí formada uma Junta Monárquica, que se passou a designar por “ Juntinha “. Paiva Couceiro estava determinado em participar e comandar a revolta.

 

A REVOLTA DE SANTARÉM E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

Contudo a conspiração que primeiro se deu foi republicana e contra Sidónio Pais, tendo tido a sua génese no Ribatejo, mais propriamente na cidade de Santarém. A conspiração desenrolou-se no hotel Aliança, situado nessa cidade ribatejana e onde residia o Dr. José Reis, advogado bem conhecido daquela cidade. (Fig.4)

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Fig. 4 – Quartel General de Santarém, local onde se deu a revolta republicana contra o regime sidonista

Os conspiradores oriundos de todo o país, eram republicanos declarados, mas que, segundo as crónicas da época, jamais dariam a sua vida pela República. Foi então constituído um núcleo civil e militar que iria preparar a revolta contra a ditadura republicana, imposta por Sidónio. Por trás estavam evidentemente muitos republicanos democráticos, ávidos não só de se vingarem da afronta sidonista, como de restabelecerem a ordem democrática e voltarem ao poder. Por todo o Ribatejo foram-se criando outros núcleos conspiradores.

Ao mesmo tempo a Junta do Norte continuava a conspirar e preparava uma revolução com o objectivo de restaurar a monarquia. Tudo isto se fazia tão às claras que o Ministro da Guerra da altura, Silva Basto, decidiu enviar ao Porto um oficial para verificar o que se passava, embora constasse que a Junta do Norte estivesse a colaborar com a revolta de Santarém, revoltas de sinais opostos, mas que certamente tinham como objectivo o mesmo fim, ou seja o derrube da ditadura de Sidónio Pais.

Entretanto Santarém revolta-se prematuramente, sem aguardar por outras forças e grande parte das Juntas Militares que controlavam o país opõe-se com o receio de uma vitória ligada ao partido democrático, a qual iria certamente proceder a uma imediata repressão e à prisão dos militares que compunham as juntas e eram apoiantes da política repressiva empreendida por Sidónio Pais.


A REVOLTA MONÁRQUICA

               Dominada a revolta de Santarém, iniciam-se de imediato os preparativos para a revolução militar, que tinha como objectivo a restauração da monarquia. O movimento restaurador resolve de imediato convidar Paiva Couceiro para liderar o movimento revolucionário que há muito se vinha organizando, principalmente a norte do país.

A rendição dos revoltosos de Santarém dá-se em 15 de Janeiro de 1919, na então Quinta do Mocho, rendição esta feita através de um comunicado em que se submetem ao governo na pessoa de Teófilo Duarte. Desta forma tinha sido evitada a revolução democrática, o que agradava aos monárquicos e estes iniciaram de imediato o seu movimento restaurador.

Durante o movimento restaurador existiam duas correntes, uma que pretendia que se iniciasse de imediato o movimento restaurador e outra, mais cautelosa, que apontava para que tal movimento fosse realizado com um maior tempo de preparação. Paiva Couceiro tinha então 57 anos, quando no hotel Universal se continuava a preparar o golpe contra a República.

Em 17 de Janeiro o jornal de tendências monárquicas “ PÁTRIA” escrevia :“Salvemos Portugal porque ou o faremos agora ou nunca mais o poderemos conseguir”

A 18 de Janeiro o mesmo “ PÁTRIA “ escrevia: “Quando veremos romper o sol da libertação? Não sabemos nós mas temos a esperança de que não havemos de morrer sem ver tremular as brisas que nos vêm do mar nessa bandeira azul e branca que nasceu em Ourique”.

Como se pode ver conspirava-se abertamente em Lisboa e no Porto e na imprensa era claramente feita a apologia monárquica e preparada a opinião pública para o movimento restaurador que se adivinhava já muito perto. Nesse dia de 18 de Janeiro de 1919 foram entregues todas as ordens aos comandantes revoltosos e Paiva Couceiro recebia alguns indícios, contudo pouco claros, do apoio do representante do rei.

Os integralistas, do movimento denominado por Integralismo Lusitano, estavam envolvidos neste golpe da restauração. Este movimento defendia uma monarquia pura, tradicionalista e não parlamentar, concentrada na pessoa e poder do rei, que exerceria o seu poder pessoal de chefe de estado. Este grupo pretendia que a revolta para a restauração da monarquia não fosse executada de imediato, mas que se preparasse melhor e com outro envolvimento político e militar. Paiva Couceiro decide então iniciar o golpe a 19 de Janeiro, sabendo que apenas parte da tropa aquartelada em Lisboa estava do seu lado.

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Fig. 5 – Diário da Junta Governativa do Reino do Norte de 21 de Janeiro de 1919 onde foi publicado o Decreto Nr. 8 que abolia a República

Estando o Ministro da Guerra Silva Basto no Porto no dia 18 desse mesmo mês, Paiva Couceiro deu ordem para que o prendessem. O rei D. Manuel II, exilado em Inglaterra e embora conhecedor do golpe não tinha dado ordens expressas sobre o mesmo, limitando-se a apoia-lo.

A 19 de Janeiro de 1919, Domingo, foi proclamada no Porto a Monarquia, tendo como seu chefe Paiva Couceiro e muitos militares monárquicos, tendo esta proclamação sido seguida em quase todo o Norte do país. (Fig.7 , 8, 9)

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                             Fig. 6 – Quartel General do Porto de cujas janelas            Fig. 7 – Quartel General do Porto – A população

                                              Paiva Couceiro falou à população                                             aclama a Monarquia

Aires de Ornelas, ilustre militar português, representante do rei exilado e parlamentar monárquico, foi chamado pelo governo da república em Lisboa, para esclarecer o que se passava no Porto. Aires de Ornelas tinha sido, em 1906, Ministro da Marinha e Ultramar no governo de ditadura de João Franco e era um ilustre colonialista e um convicto monárquico.

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                                                   Fig. 8 – A bandeira monárquica hasteada na Bolsa do Porto

Este ilustre monárquico e militar informa o governo que recebera um telegrama de Londres onde D. Manuel II lhe solicita para que os monárquicos se coloquem sempre do lado republicano em todos os actos relativos à ordem pública. Por aqui podia-se entender que tal revolta não colhia as simpatias do rei exilado ou que tal resposta não passou de um simples jogo político para entreter os republicanos, já que Aires Ornelas participaria activamente na revolta, mormente no comando das forças monárquicas que se colocaram em Monsanto, então às portas de Lisboa e donde pretendiam impor a monarquia a Lisboa através da força militar.

De imediato os militares republicanos foram convocados para uma reunião em Campolide, onde iriam iniciar a contra-revolução. Nessa reunião seria aprovado um importante manifesto, que se designava pelo “ Pacto do Corpo de Tropas” e que expressava o seguinte:

1º - O Corpo de Tropas mantém-se neutro formando um bloco para a manutenção da ordem, com o fim de reprimir a demagogia .

2º - As unidades reprimirão qualquer assalto a qualquer delas .

3º - As unidades só cumprem ordens por intermédio do comando .

4º - Não podem ser desviadas de Lisboa .

5º - O governo não promove nem sanciona qualquer acção agressiva no Corpo de Tropa.

6º - Não serão feitas concentrações de tropas na cidade ou arredores, nem Lisboa será atravessada por tropas estranhas sem o assentimento do Corpo de Tropas.

7º - O Corpo de Tropas garante a segurança do Presidente da República, governo e qualquer cidadão que a ele se acolha.

8º - Não haverá deslocações no Corpo de Tropas sem proposta do comandante, com prévio assentimento dos comandantes das unidades.

9º - Não poderá ser alterado o que fica estabelecido sem nova reunião dos comandantes.

As tropas republicanas mostram claramente neste pacto que estavam cientes do poderio das forças monárquicas e que não seriam elas a tomar a iniciativa. A Monarquia do Norte é implantada no Monte Pedral, no Porto, onde as tropas monárquicas em parada ouvem a proclamação da monarquia, lida por Saturio Pires, fiel apoiante e grande amigo do general Paiva Couceiro, dizendo naquela proclamação o seguinte.

Soldados!

Tendes diante de vós a bandeira azul e branca! Essas foram sempre as cores de Portugal – desde que D. Afonso Henriques em Ourique na defesa da nossa terra contra os moiros – até D. Manuel II mantendo contra rebeldes africanos os nossos domínios em Magul, Coolela, Cuamata, e tantos outros combates que ilustraram as armas portuguesas. Quando em 1910 Portugal abandonou o Azul e Branco, Portugal abandonou a sua história! E os povos que abandonam a sua história são povos que decaem e morrem.

Soldados! O exército é acima de tudo a mais alta expressão da Pátria e por isso mesmo tem que sustenta-la e tem que guarda-la nas circunstâncias mais difíceis, acudindo na hora própria contra todos os perigos, sejam eles externos ou internos, que lhe ameacem a existência.

E abandonar a sua história é erro que mata! Contra esse erro protesta, portanto, o exército hasteando novamente a sua bandeira azul e branca. Aponta-vos ela os caminhos do valor, da lealdade e da bravura, por onde os portugueses do passado conquistaram a grandeza e a fama que ainda hoje dignifica o exército de Portugal perante as nações do Mundo!

Juremos segui-la, soldados e ampara-la com o nosso corpo mesmo à custa do próprio sangue! E com a ajuda de Deus e com a força das nossas crenças tradicionais, que o azul e branco simbolizam, a nossa Pátria salvaremos!

Viva El-Rei D. Manuel II!

Viva o exército!

Viva a pátria portuguesa.

Este comunicado era assinado por Paiva Couceiro e por um conjunto de convictos monárquicos. O movimento monárquico teve um largo apoio popular no Porto, tendo-se gerado uma grande manifestação popular espontânea e vendo-se em muitas casas por toda a cidade as bandeiras realistas azul e brancas. (Fig. 9)

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Fig. 9 – Manifestação de Monárquicos na Foz (Porto).

Efectivamente o povo demonstrava claramente que estava cansado da instabilidade política e da perturbação republicana existente nos últimos 9 anos, onde sucessivos governos não eram capazes de conduzir a nação e a levavam para o caos económico e social.

Contudo no resto do país a situação era muito confusa e a adesão das tropas era por vezes pequena, existindo alguns núcleos monárquicos que procuraram resistir e proclamar a instauração da monarquia, mas a resistência era bastante grande. Foi então criado o Diário da Junta Governativa, entretanto constituída no Porto e que era presidida por Paiva Couceiro. Neste jornal seriam publicados os decretos da Junta. A monarquia e os seus hábitos iam-se de imediato instalando e por exemplo em todos os espectáculos com orquestra era obrigatório tocar o hino da Carta, hino monárquico.

O entusiasmo a Norte do país era grande e até quadras populares foram feitas contra os principais dirigentes da República, tais como Afonso Costa:

Da pêra de Afonso Costa

                                Hei-de fazer um pincel

                                Para limpar a bacia

                               Do Senhor D. Manuel

Todo o Norte e parte do centro aderiram à monarquia. (Fig.10) O Minho e grande parte da Beira eram completamente realistas. Já Trás-os-Montes encontrava-se dividida com Vila Real e Chaves a não apoiarem o golpe monárquico. O Sul mantinha-se quase na sua totalidade republicano.

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Fig. 10 – Proclamação da Monarquia em Viana do Casyelo

Estavam assim criadas as condições que levariam a uma pequena guerra civil de curtíssima duração.

 

A CONTRA REVOLUÇÃO REPUBLICANA

                A reacção republicana não se fez esperar e logo foi realizada uma reunião com o Presidente do Conselho, Tamagnini Barbosa, onde participaram os partidos republicanos, que se uniram para fazer face à crise constitucional. Sidónio Pais tinha perseguido muitos dos partidos republicanos, mas morto em Dezembro de 1918 e embora o regime ainda fosse o das juntas militares, tal não obstou a que os republicanos se reunissem em torno da sua República.

Nessa reunião participaram grandes republicanos como José Relvas, Alberto da Silveira, Carlos da Maia, Barros Queiroz, Egas Moniz, Brito Camacho, António José de Almeida e Afonso Costa. A primeira decisão que este grupo tomou foi a de libertar os presos políticos republicanos que ainda estavam presos do tempo do sidonismo, dando assim satisfação a uma velha aspiração do Partido Democrático.

A União Operária Nacional igualmente apoiou o movimento contra-revolucionário republicano, apesar de ter sido perseguida por todos os governos. De tendência bolchevique, esta União solicitava ainda que fossem indultados os revolucionários de Santarém, que como atrás se disse se tinham revoltado prematuramente contra a ditadura sidonista. O governo da República dá igualmente ordem para armar o povo e convoca-se uma manifestação para o Campo Pequeno, em Lisboa, para apoiar a República, tendo esta realizado-se em 22 de Janeiro de 1919. A população reuniu-se em grande número no Campo Pequeno e aí iniciou a formação de companhias de populares e voluntários de apoio à República. (Fig11)

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     Fig. 11 – O povo reunido na Praça dos Touros do Campo Pequeno       Fig. 12 – O Batalhão Académico reunido nas Janelas Verdes

O convite publicado nos jornais e distribuído à população dizia o seguinte:

Ás armas cidadãos!

O governo da República desejando, em presença dos acontecimentos que vêem decorrendo, aproveitar todos os esforços dos bons republicanos, tendentes a dominar rapidamente o movimento revolucionário do Porto, resolveu abrir uma inscrição para se poderem constituir, rapidamente, batalhões de voluntários, para o que se convoca todos os cidadãos da república a comparecerem hoje, 22, pelas dez horas da manhã, no Campo Pequeno. O governo também autoriza os académicos, que assim o desejarem, a organizar um batalhão para o mesmo fim, para o que deverão comparecer à mesma hora, no depósito de adidos da guarnição, às Janelas Verdes, sob o comando do sr. Capitão de cavalaria e aviador António Maia e capitão de infantaria Henrique Guerra. (Fig.12)

 

A BATALHA DE MONSANTO

As tropas realistas estavam estacionadas em Monsanto, ponto estratégico para bombardear e dominar a cidade de Lisboa, enquanto as republicanas se agrupavam para atacar essas posições. (Fig.13) Quando se dá a revolta monárquica era Presidente da República o Almirante Canto e Castro, um monárquico convicto.

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Fig. 13 – Mapa com o posicionamento das forças Monárquicas e Republicanas em Monsanto.

Entretanto o ilustre Aires de Ornelas tinha assumido o comando dos revoltosos monárquicos em Lisboa onde as forças a favor da República eram largamente superiores em relação aos monárquicos. As hostilidades em Lisboa prolongaram-se por 5 dias, durante os quais se defrontaram ferozmente os monárquicos e republicanos que empreenderam entre eles uma intensa batalha de artilharia, que fez muitos mortos e feridos de ambos os lados, tendo morrido ao todo 39 pessoas e ficado feridas 330.

As forças monárquicas ficaram rapidamente cercadas, começando então a escassear os mantimentos e munições e em especial a impossibilidade de evacuação e tratamento dos feridos. Sem munições os monárquicos foram atacados por todos os lados e tiveram que se refugiar no forte de Monsanto onde iriam ser presos e onde sofreriam uma grande humilhação e cruéis torturas às mãos dos republicanos.

 

A CONQUISTA DO NORTE

Apesar desta derrota dos monárquicos o país encontrava-se claramente dividido e era governado por dois governos, um republicano em Lisboa e outro monárquico no Porto. Contudo era a norte que a monarquia tinha vingado, já que por exemplo Coimbra e Aveiro mantiveram-se republicanas. (Fig. 14, 15, 16, 17)

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        Fig. 14 – Sobrescrito da Junta Governativa da Monarquia do Norte       Fig. 16 – Nota de “UM TOSTÃO” da Monarquia do Norte

Após a vitória de Lisboa, as forças republicanas dirigem-se ao Norte do país, começando por submeter toda a Beira, incluindo a sua capital Viseu. Seguiram depois para a Régua e Albergaria, que após violentas refregas dominaram. Muitas unidades militares do norte ao saberem da vitória dos republicanos em Monsanto, passaram-se então para o lado republicano, o que demonstra bem a pouca consistência da revolta monárquica e o que vem dar razão aos integralistas que eram de opinião que o golpe deveria ter sido levado a efeito mais tarde.

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                                   Fig. 17 – Cartão de Identidade da Monarquia do Norte                       Fig. 15 – Papel Selado da M. doNorte

Entretanto na cidade do Porto a população republicana começava a manifestar espontaneamente o seu apoio à República, reunindo-se no Monte da Virgem. No meio deste grande movimento de tropas, continuava-se a assistir à disputa entre sidonistas e democráticos, procurando estes últimos aproveitar esta guerra civil para acabar com o governo ditatorial, de inspiração sidonista.

As forças republicanas dominavam toda a logística do país, por terra, mar e ar, apresentando uma grande superioridade em relação às forças monárquicas. Detinham os abastecimentos de comida e munições, a pequena força aérea de hidroaviões e essencialmente dominavam todos os portos do país. (Fig.18)

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Fig. 18 – Um hidroavião estacionado em Aveiro e que interviu nas operações militares do lado republicano

As forças monárquicas em inferioridade clara, decidiram constituir companhias de reservistas, essencialmente constituídas por gente pobre dos campos, sem preparação e mal equipada. Pouco a pouco o norte ia cedendo, sendo Chaves o grande baluarte da República e daqui seguiram-lhe o exemplo outras povoações como Bragança, Mirandela, Lamego, Régua, Estarreja e muitas outras.

A Monarquia cedia e perdia.

Os hidroaviões eram comandados por dois ilustres aviadores portugueses, Sacadura Cabral e Santos Moreira e estavam ao serviço da causa republicana. Tinham essencialmente a missão de lançarem panfletos contra-revolucionários no Porto, embora tivessem feito igualmente alguns bombardeamentos.

Nesta guerra civil, o lado republicano usou igualmente alguns batalhões do C.E.P. – Corpo expedicionário Português que tinha combatido em França na Grande Guerra. Por sua vez os republicanos iam-se infiltrando nas unidades monárquicas, mormente na Guarda Real sedeada na cidade do Porto. Entretanto no Porto era publicada pelos monárquicos uma lei datada de 13 de Janeiro de 1919, que muito desagradou à população e que dizia o seguinte:

Todas as notas do Banco de Portugal, em circulação nesta data, serão sobrecarregadas ou substituídas nos prazos e termos determinados por este decreto: As notas do valor de vinte, cinquenta e cem mil réis serão depositadas, até ao dia 20 do corrente mês inclusive, na Caixa Filial do Banco de Portugal no Porto ou nas agências do mesmo Banco para lhes ser aposta no anverso, em duas linhas paralelas a sobrecarga REINO DE PORTUGAL, 19 de Janeiro de 1919.

A Caixa Filial e as agências a que se refere o artigo antecedente receberão dentro do referido prazo, essas notas, entregarão aos apresentantes dez por cento dos respectivos valores em notas já sobrecarregadas ou de valor inferior a 20.000 réis e tomarão, em conta de depósito gratuito, os restantes noventa por cento sob pena de desobediência qualificada. (Fig.19)

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Fig. 19 – Fac-simile de uma nota com a sobrecarga REINO DE PORTUGAL

E se a monarquia perdesse? Certamente que a população arriscava-se a perder grande parte das suas economias! Este decreto foi talvez a chave para a resolução da guerra civil instalada no país, já que produziu um profundo descontentamento em toda a população, que se sentia dessa forma espoliada de noventa por cento do dinheiro que tinha em seu poder.

E pergunta-se ainda se uma medida destas, avulsa, teria contrapartida nos preços que seriam praticados no comércio? A população rapidamente se apercebeu que se dispusesse a ceder aquele decreto, perderia todo o seu dinheiro caso a república vencesse a guerra civil, o que efectivamente veio a acontecer nesse mesmo dia 13 de Fevereiro.

Na manhã de 13 de Fevereiro a Junta Governativa do Reino ainda publicou o Diário da Junta Governativa do Reino de Portugal, último acto oficial da Monarquia. Nesse mesmo dia a Guarda Real, antes Republicana, revoltou-se e restabeleceu no Porto a República, acabando de vez com a guerra civil e a aventura monárquica. As bandeiras republicanas foram substituindo as monárquicas. (Fig.20, 21)

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          Fig. 20 – Os presos políticos continuavam a ser alvo de repressões     Fig. 21 – Manifestação de republicanos na cidade do Porto

Júlio Dantas após a vitória republicana proclamava ser: “ a ordem inseparável da república. Se a data de 5 de Outubro é a data da república proclamada, a data de 13 de Fevereiro é a da república imortal “

Os ministros da Junta Governativa do Norte foram todos presos e julgados o que igualmente aconteceu a muitos militares monárquicos que participaram no golpe restaurador. (Fig.22) Durante este período foram cometidas enormes violências por ambas as partes contra os adversários e os presos políticos, pelo que esta fase da nossa história ficou conhecida pelo “Reino da Traulitânia“. Aproveitando o fim da Monarquia do Norte, os políticos democráticos conseguiram acabar com a ditadura sidonista e implantaram de novo um regime democrático parlamentar.

Henrique Mitchell de Paiva Couceiro, o grande colonialista, patriota, chefe monárquico e general português, exila-se em Espanha, vindo a morrer em Lisboa no ano de 1944. Em 12 de Fevereiro de 1919 são emitidos valores postais que seriam utilizados pelos monárquicos a partir do dia 13, porém o contra golpe republicano não permitiu que esses mesmos valores fossem utilizados, pelo que estes jamais circularam. (Fig.22) Valores fiscais chegaram igualmente a serem impressos.

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Fig 22 – Selos e Bilhete Postal emitidos pela Monarquia do Norte

Sem o novo conceito de OPEN CLASS, jamais poderíamos contar filatelicamente esta maravilhosa história da 1ª República Portuguesa.

 

            Lx. 24 de Agosto de 2003                       

Actualizado em Quarta, 23 Setembro 2009 16:06
 

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