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Clube Filatélico de Portugal

Restauração de Angola, Futebol e Correio Aéreo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Elder Manuel Pinto Correia   
Quarta, 16 Setembro 2009 16:26

 

A História e a Filatelia

 Restauração de Angola, Futebol e Correio Aéreo

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                                                                                                                                       Elder Manuel Pinto Correia

 

 

            1 – Reconquista de Angola

                Era o dia 15 de Agosto de 1648. O dia rompeu e as forças portuguesas retomaram a marcha sobre a cidade de Luanda, cobertas por duas companhias de mosqueteiros comandadas pelos Capitães Francisco Vaz Aranha e Manuel Dias que facilmente repeliram os “Maxiluandas” das trincheiras avançadas, e a defesa holandesa procurou o abrigo das muralhas da Fortaleza do Morro, dando azo a que as tropas portuguesas avançassem vigorosamente.

                Acima do fuzilaria dos mosqueteiros, erguia-se o repicar dos sinos do Colégio da Companhia até então residência do Director Holandês.

                Entretanto Salvador Correia descera da Praça à Igreja Matriz e para combater a artilharia holandesa que varejava a cidade, mandou estabelecer no adro da mesma uma bateria para daí alvejar directamente o Forte do Morro.

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                O alvo era o largo e as balas tombavam às centenas no recinto da Fortaleza. Sem perda de tempo, o Sargento-Mor Diogo Coelho de Albuquerque dispõe as forças para a avançada sobre o Forte do Morro, as quais foram organizadas em quatro colunas com os objectivos devidamente fixados. A primeira dessas colunas comandada pelo Capitão Fonseca de Ornelas, devia descer a Praia Grande procurando alcançar, por uma rampa difícil, a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia que servia de paiol ao Forte do Morro; a segunda dirigida pelo Capitão João Soromenho, com outros capitães e gente de bordo, deveriam lançar um ataque em chalupas pelo lado do mar; a terceira seguiria pela Praia do Bispo, e a quarta executaria o avanço directo sobre o Morro.

                O ataque porém, mercê da noite que descia, não manteve a necessária simultaneidade e dado o alarme por uma sentinela flamenga, a artilharia do Morro rompeu fogo de bala miúda e pregos contra a coluna que efectuava o ataque a peito descoberto. Neste assalto houve actos de verdadeira bravura, tendo alguns soldados chegado a atravessar o fosso e subido a um dos baluartes. Mas como foram poucos, o inimigo flamengo botaram os nossos abaixo.

                As restantes colunas foram chegando separadamente, e quando surgia a manhã, viu-se que as perdas eram grandes e que entre elas se contavam alguns dos oficiais que haviam comandando os assaltantes.

                A natural confusão que reinava não chegou a atingir o ânimo decidido de Salvador Correia que entretanto tomava as providências tendentes a socorrer e a reorganização imediata das forças para um segundo assalto em plena luz do dia.

                Mas quando tudo se preparava para essa segunda vaga e a artilharia mantinha fogo de preparação, subitamente, e com espanto de todos, no Forte do Morro ergueu-se a bandeira branca, e uma caixa de guerra fez chamada.

                Tal oportunidade foi imediatamente aproveitada por Salvador Correia e prontamente se estabeleceram os entendimentos preliminares da rendição dos holandeses.

                E em breve como convinha aos próprios sitiantes, foram afixadas as condições de rendição em termos honrosos para os sitiados: “abandonariam os Fortes do Morro e de Nossa Senhora da Guia, com toda a honra e decoro, com gente formada, bandeiras tendidas, corda acesa, bala em boca, ao toque das suas caixas e clarins, por duas alas da nossa infantaria, com dois canhões de bronze com as armas da Companhia de Holanda, marchando até à praia, onde seriam desarmados, levando toda a sua fazenda e fardagem que no forte tinham”.

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                Estas capitulações estendiam-se igualmente aos 300 homens que tinham em campo, bem como as guarnições das Fortalezas da Barra do Quanza, da Ilha Ensandeira e Barra do Bengo, às quais, conjuntamente com as tropas rendidas, seria dado pronto transporte para o Brasil Holandês.

                Estava consumado o princípio da libertação de Angola, a Restauração do reino de Angola.

 

                2 – 288.º Aniversário da Reconquista de Angola

A 14, 15 e 16 de Agosto de 1936, promoveu a Câmara Municipal de Luanda, coadjuvada por uma Comissão de Festas, um vasto programa de festas dedicadas à Cidade de Luanda, assim como à manutenção de uma ancestral tradição de se festejar condignamente a histórica data da Reconquista de Angola, que sempre foi assinalada por um feriado no dia 15 de Agosto de cada ano.

                Decorreram bem “As Festas da Cidade” e comemorativas da Reconquista. Houve eventos que se impuseram pelo ineditismo e outros pela organização.

                Dos eventos anunciados, houve três que se notabilizaram como dignos de serem mantidos, segundo a imprensa da época, em futuras organizações: a festa infantil no Estádio Municipal dos Coqueiros, uma animadíssima garraiada e a vinda da Selecção de Futebol do Congo.

                A realização do I Luanda – Congo em futebol, despertou nas gentes angolanas uma grande expectativa pelo ineditismo do evento. Seria o primeiro jogo de futebol internacional a disputar em Angola.

 

                3 – I Luanda – Congo em futebol.

                A realização do primeiro jogo internacional de futebol em Luanda, desde logo motivou interesse da população angolana, bem como da vizinha colónia congolesa. A imprensa local, fruto do ineditismo da iniciativa, em todas as suas edições dava notícia da onda de entusiasmo que percorria pelas populações de Luanda e arredores.

                A 6 de Agosto iniciaram-se os treinos da selecção de Luanda, e o público acorreu em massa ao Estádio dos Coqueiros, demonstrando enorme interesse em ver os futebolistas que representariam a cidade contra a equipa congolesa.

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                Em 12 de Agosto de 1936 em reunião da Direcção da Associação de Futebol de Luanda e por unanimidade ficou constituído o “onze” que jogaria, sendo de realçar a existência de convocados de uma equipa de futebol representativa dos Correios de Angola.

                Guarda-redes: Morais (Correios)

                Defesas: Carlos Fernandes (Ferrovia – Capitão)

                                  Mendonça (Sporting de Luanda)

                Médios: Paciência (Sporting de Luanda)

                                 Saldanha (Atlético)

                                João Abreu (Ferrovia)

                Avançados: Carlos F. Castro (Ferrovia)

                                          Fernando Peyroteo (Sporting de Luanda)

                                          Telmo (Sporting de Luanda)

                                          Zeca Oliveira (Ferrovia)

                                          Júlio Peyroteo (Sporting de Luanda)

                Suplentes: Norberto (Sporting de Luanda)

                                      Octávio (Sporting de Luanda)

                                      Rosa (Atlético)

                                      Adelino (Ferrovia)

                                      Bráz (Ferrovia)

                                      Marques (Correios)

                Ficou acordado entre as Selecções de Luanda e a do Congo Belga a realização de dois jogos a realizar nos dias 14 e 16 de Agosto.

                A equipa congolesa era constituída por 4 portugueses, 4 franceses e 3 belgas a saber:

                Guarda-redes: Gonçalves (Amicalle)

                Defesas: Tumelaire (CAB)

                                   Fernandes (Amicale)

                Médios: Souza (Amicale)

                                 Nelisseu (Cercle)

                                 Derricks (Cercle)

                Avançados: Geordano (Amicale)

                                          Cannazi (CAB)

                                          Wampach (Cercle)

                                          Desroches (CAB)

                                          Triale (CAB)

                Amicale – Amicale Sportive Portugaise

                Cercle – Cercle Sportive de Leo

                CAB – Clube Atlétique de Brazaville

                Dia 14 de Agosto, data aprazada para o primeiro encontro, pelas 15 horas, apareceram no horizonte dois trimotores Foccker da Sabena, que transportavam a equipa congolesa, demais comitiva e duas dezenas de entusiastas que se deslocavam para presenciar tão publicitado desafio de futebol.

                Recebidos em triunfo, foram transportados para a Sede do Grémio dos Correios, onde a Associação de Futebol de Luanda lhes ofereceu um “Porto de Honra”, que decorreu com muito entusiasmo, trocando-se recordações. Teve a recepção de se fazer muito depressa pois que pelas 17 horas se realizaria o ansiado jogo no Estádio dos Coqueiros. Por essa hora, o campo apresentava um aspecto imponente, próprio dos dias solenes de grande cartel.

                A Selecção do Congo desceu ao campo com camisola branca e calção preto e a de Luanda com camisola vermelha e calção azul.

                O encontro deu a vitória à Selecção de Luanda pelo elevado resultado de 6 – 1 tendo marcado pela selecção de Luanda: Telmo (3), Fernando e Júlio Peyroteo.

                A 16 de Agosto jogou-se a segunda partida, que malgrado as desculpas congolesas, do estado de cansaço verificado na primeira partida, pela longa viagem aérea de 4 horas, ditou nova vitória concludente por 11 – 0.

 

                4 – Por fim a Filatelia

                O transporte por via aérea da comitiva congolesa, acabaria por ser aproveitado para o transporte do primeiro correio aéreo entre Leopoldville e Luanda, e pode-se mesmo considerar como sendo o primeiro correio aéreo internacional da colónia de Angola.

                No n.º 2 da Convenção Filatélica, órgão de divulgação da ANJEF, publiquei um artigo intitulado “POR AVIÃO”, em que dava a conhecer um exemplar filatélico, circulado por via aérea de Luanda para Lisboa em 25 de Junho de 1936, com a curiosidade de o percurso entre Luanda e Leopoldville, ter sido efectuado por camioneta. Embora no citado artigo tenha feito transparecer ser esse o primeiro correio aéreo externo efectuado em Angola, em boa verdade, apenas pode ser considerado como um precursor do correio aéreo, pois o trajecto no interior de Angola, nunca o foi por via aérea.

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Figura 1

                O primeiro correio genuinamente circulado por via aérea dentro da colónia portuguesa é o representado pelas duas cartas que apresentamos nas Figuras 1 e 2.

No primeiro caso, trata-se de uma carta circulada de Leopoldville em 14 de Agosto de 1936 para Luanda, com carimbo de chegada no verso, datado também de 14 de Agosto de 1936, com selo belga de 1,50 F. No frontispício do sobrescrito foi manuscrito a vermelho a alusão ao evento “Vol spécial Congo-Angola”. O sobrescrito é dirigido ao Sr. Alfredo Fernandes, membro da equipa de futebol do Congo, em visita a Luanda. Segundo F. Godinas, apenas foram circulados 20 cartas neste voo e no sentido do Congo para Luanda

                No segundo caso, temos uma carta circulada no voo de regresso de Luanda para Leopoldville em 17 de Agosto de 1936, obliterada com carimbo de Luanda na mesma data, e com carimbo de chegada datado de 18 de Agosto de 1936. Foi franquiada com selo de 80 ctvs, tipo Ceres Filigranado. Segundo F. Godinas apenas 10 cartas foram circuladas no voo de regresso.

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Figura 2

O porte foi cobrado de acordo com a tabela de portes aprovada pelo Acordo Postal Africano, publicada no Boletim Oficial de Angola de 02.05.1936, pelo Aviso n.º 8 da Repartição Central dos CTT. Este Acordo estabelecia que entre os signatários onde se englobavam Angola e o Congo Belga, as cartas entre si permutadas pagariam 80 ctvs por cada 20 gramas.

                Porém parece-nos ter havido uma errada avaliação do porte a pagar, porquanto ter sido publicada a 24 de Junho uma tabela da sobretaxa do correio aéreo, que entrou de imediato em vigor. Assim entendemos que ficou por cobrar o valor de 0,16 francos, equivalente ao primeiro porte da sobretaxa aérea para cartas com o peso até 10 gramas, remetidas para o Congo Belga.

 

                5 – Epílogo

                O Correio Aéreo das nossas ex-colónias, continua a ser uma “Caixa de Surpresas”, pois nunca sabemos o que de lá pode surgir. Entendemos ser um tema aliciante, excitante e acima de tudo de grande relevância e importância no âmbito da Aerofilatelia Portuguesa. Fazemos votos para que num futuro próximo possamos ver em competição uma colecção versando o tema.

 

Bibliografia.

            Jornal “A Província de Angola”

                Jornal “Última Hora”

                Jornal “O Diário de Luanda”

                Boletim Oficial de Angola

Actualizado em Sábado, 19 Setembro 2009 13:13
 

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