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Clube Filatélico de Portugal

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Escrito por Luís Frazão   
Quarta, 16 Setembro 2009 22:18

 

Da Pequena Posta à Posta Diária em Lisboa

Notas a propósito da marca CART

                                                                                                                                                     Frazão
                                                                                                                                                                                                                  Luís Frazão           

            1 - Prólogo

                Em Setembro de 1986 completei um artigo, que não chegou a ser enviado para publicação, que intitulei “Ainda a marca CART”, e que terminava com a questão. «O que andou o CART a fazer entre Junho de 1822 e Agosto de 1834?». Esta frase, da autoria do Eng.º Andrade e Sousa, foi pela primeira vez apresentada em 1983, quando aquele colega de estudos histórico-postais publicou um artigo sobre o assunto[1].

A razão para esta questão prendia-se com a ausência (ou o nosso então desconhecimento da mesma) da marca CART em documentos postais no período indicado, sendo no entanto conhecida nos períodos imediatamente anterior e posterior.

E foi justamente por não ter conseguido responder à pergunta em epígrafe, que o meu estudo não foi publicado, ficando o dossier CART à espera de qualquer dado novo, ou ideia inovadora que pudesse esclarecer a situação.

Foi o que sucedeu passados 14 anos, quando em dois lotes de cartas, leiloadas no Clube Filatélico de Portugal, apareceram alguns exemplares que permitiram dar resposta à questão, assim como a outras, então não levantadas.

Para tal, houve que passar por uma fase de reflexão, “esquecer” a marca CART e a sua leitura, e fazer um percurso na história postal de Portugal Continental, começando no ano de 1797, data da extinção do ofício de Correio Mor do Reino, prolongando-o até 1836.

É este estudo e as suas conclusões que gostaria de partilhar com o leitor, não sem antes pedir a compreensão para as falhas que necessariamente terá, assim como a ajuda daqueles que com as peças das suas colecções podem confirmar ou pôr em questão o que de seguida se escreve.

 

1.1 - A leitura do CART

Escrevíamos em 1986, resumindo o pensamento e os conhecimentos de então. « CART é uma marca administrativa do Correio Geral de Lisboa, aplicada em cartas em que o Correio teve de fazer diligências para encontrar os destinatários. Essas diligências eram feitas por carteiros, sendo possível que CART seja a abreviação desta palavra. Encontramos o CART desde 1803 a 1838, com um interregno entre 1821 e 1834.»

 

2. A Legislação Postal de finais do século XVIII e início do século XIX

De diferentes leis e documentos postais, publicados durante este período vamos assinalar alguns pontos de interesse para o nosso estudo.

 

1- Relatório postal de 1799.

                «Além disso, devo estabelecer portadores de cartas e caxas de distritos em Lisboa......, e deste modo unicamente posso evitar a confusão do Correio Geral...»

«O estabelecimento de portadores em Lisboa é de última necessidade.....,.....para executar este objecto estou a organisar como posso o mappa de Lisboa com a divisão que me parece mais combinada como bom serviço serviço público......, ......e espero vê-lo concluído no presente ano.»

2 - 12.02.1801. Decerto para o Estabelecimento da caxas de Correio e portadores de cartas.

«Determina que se estabeleça caxas do correio e Portadores de cartas em Lisboa e nos povos circumvisinhos»

3 - Regulamentação da Pequena Posta de Lisboa. Maio de 1801

«Artigos e Regulação para o Estabelecimento da Pequena Posta em Lisboa»

4 - 9.12.1801.

Ordem para colocar Tabuletas nas esquinas das ruas de Lisboa.

5 - 29.01.1803

«Ao Príncipe Regente Nosso Senhor parece que sendo muito conveniente o estabelecimento da Pequena posta de Lisboa, ......., e portanto permite o mesmo senhor que se possa arbitrar aos Carteiros o pagamento diário de 400 réis.

6 - 24.05.1803

«Remeto a V. Exª cópia do ofício com data de 21 do corrente mês que me escreve D. Rodrigo de Sousa Coutinho sobre a enumeração e indicação das Ruas desta cidade e relativo igualmente ao estabelecimento da Pequena Posta[2],.....»

7 - 1803 a 1807.

Plano para o estabelecimento da Pequena Posta e obrigações de todos os seus officiais e empregados[3].

8 - Edital de 27.10.1807.

Mandando avivar e reformar os números de polícia

9 - 2.04.1811.

Edital sobre a numeração das portas

10 - 29.08.1813.

Numeração das portas.

O que acima enumerámos referia exclusivamente a pequena posta de Lisboa. No entanto em numerosos Alvarás postais, é referido muitas vezes um problema afim, que têm a ver com as dificuldades na distribuição da correspondência.

Do preâmbulo do Decreto de 18.01.1797 pode-se ler, «Tendo-me sido presente os graves inconvenientes que experimenta não só a minha Fazenda Real mas a facilidade de comunicação interior do reino e dos meus Domínios Ultramarinos........» sendo este argumento repetido, embora de forma diversa no Alvará de 16 de Março.

O documento seguinte, o alvará de 1 de Abril de 1799, também conhecido pelo «Regulamento Provisional para o estabelecimento do Correio», não nos trás aquela inovação que seria de esperar de tão importante documento.

Para além das necessárias alterações a nível administrativo (artigos I a V), estabelece as tabelas de portes para cartas dobradas, já que as cartas singelas (até 4/8 de onça) «pagam como até agora 20 réis.».

Nas restantes tabelas de cartas do Algarve, Hespanha, Correio Extraordinário do Porto, Ultramar[4] e Seguros, tudo se mantém «como até agora se têm praticado» (i.e., no tempo do Correio Mor).

As “Instruções Práticas para os Correios Assistente”, datadas de 6 de Junho de 1799, também não contêm grandes inovações; no entanto, no capítulo IX determina-se: “A escrituração das listas, determinada no artigo anterior.....; e quando alguma pessoa pedir aos correios que as suas cartas não entrem na lista, estes o poderão fazer unicamente por obséquio.”  

No aviso de 14 de Março de 1801, aparece algo de novo: uma tabela de portes, em função do peso e da distância, passando a carta singela a ser a que tem de peso até 2/8 de onça; Em simultâneo extingue-se a denominação e taxas do extraordinário, por excessivas.

È neste mesmo período de intensa actividade legislativa, que é publicado em Maio de 1801 o “Decreto e Regulamento para o estabelecimento da Pequena Posta, caxas e portadores de cartas em Lisboa.”

Da leitura dos 52 artigos que o compõem, assim como do roteiro dos 17 distritos que dividiam a cidade de Lisboa, espanta-nos a minúcia do mesmo, assim como a rapidez da sua elaboração, se pensarmos que o aviso é de 12 de Fevereiro.

Finalmente e para terminar este período, aparece o Decreto para a Nova Regulação do Correio, datado de 8 de Abril de 1805, em que são repetidos, em muitos casos textualmente, o que tinha sido escrito no Regulamento Provisional.

Apresenta algumas inovações:

a)      - O pagamento de taxa em cartas para Hespanha, países do Continente e Inglaterra.

b)      - Determina como proceder com as cartas reputadas perdidas (do Reino e do Ultramar).

Do que acabámos de transcrever ressaltam claramente duas preocupações do legislador:

1 - Chamar à coroa os Rendimentos dos portes da correspondência, (aumentando os mesmos, criando outros que não existiam até então.)

2 - Tornar eficaz o efectivo recebimento desses mesmos portes.

Resulta também da leitura da legislação postal, que o estabelecimento do correio (com excepção do recém criado Correio marítimo) devia estar a funcionar satisfatoriamente, pois só assim se justifica que se mantenha toda a legislação e modus operandi anteriores, pelo menos até 1805, e em certos casos além desta data.

O fundamental, e é necessário repeti-lo, era transferir as receitas do Correio Mor para a Coroa, e providenciar ao seu efectivo recebimento. Nesta óptica, compreende-se a criação de uma Pequena Posta na capital e arredores, cujo intuito era o de acelerar e tornar efectivo o recebimento do porte das cartas dirigidas aos habitantes de Lisboa, mediante uma rápida entrega domiciliar. (não era preciso esperar que o destinatário consultasse a lista no Correio Geral e se decidisse a ir (mandar) levantar a carta.)

 

Evitava-se assim a confusão resultante da acumulação de alguns milhares de cartas no Correio Geral, à espera de serem levantadas, e em relação às quais também não se recebia o porte. Para tornar este plano da Pequena Posta exequível, para além do porte da carta, havia lugar ao recebimento de um pequeno prémio suplementar, inovação que nos parece ter sido uma das causas da falha do sistema.

 

3. Distribuição domiciliária versus cartas apartadas

E se em Lisboa havia grande acumulação de cartas não reclamadas pelos destinatários, o que se passaria nas terras da província? A menor extensão territorial, o conhecimento quer todos tinham da vida, hábitos e local de residência dos seus conterrâneos, fazia com que o problema fosse de menor dimensão, sendo seguramente a maioria das cartas entregues aos seus destinatários e os portes arrecadados. Estávamos assim perante um problema de Lisboa e das grandes cidades como Porto e Coimbra, que a pequena posta primeiro e a distribuição domiciliária posteriormente deveriam resolver.

E que tinha este sistema de errado? Cremos que fundamentalmente dois pontos, actuando ambos no mesmo sentido:

                               1 - O de se aplicarem taxas (de 5, 10 e 20 réis) pela distribuição domiciliária das cartas.

                               2 - O de permitir que as cartas não ficassem nas listas e pudessem ser apartadas «por obséquio» (com a necessária gratificação ao funcionário do correio, de valor inferior ao cobrado pela distribuição ao domicílio).

Começou assim a aparecer desde o início do século XIX uma instituição – a dos apartados – que em 1821 tinha mais de 2500 nomes, instituição não oficialmente reconhecida, sem proveitos directos para o correio, mas somente para os seus funcionários, e de reconhecida comodidade e poupança para os utentes.

Com base em tudo o que acabamos de referir, devemos concluir com Godofredo Ferreira, em opinião expressa e seguida por vários autores, que a Pequena Posta de Lisboa nunca chegou a entrar em funcionamento, primeiro por dificuldades várias, e depois pela perturbação havida como resultado das Invasões Francesas?

Não perfilhamos esta opinião; muito ao contrário sabemos que foi decretada, legislada e estamos convencidos de que foi montada e até que começou a funcionar. Porém devida à relutância dos utentes em pagar a taxa adicional, e em fornecer a sua morada no correio Geral, foi-se constatando da sua inoperacionalidade (rentabilidade) até que deixou mesmo de funcionar.

As duas cartas que abaixo se ilustram são a prova necessária da existência de Pequena Posta de Lisboa, pelo menos em 1802 e 1803.

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Figura 1

A carta que se apresenta na figura 1 foi expedida do Redondo para Lisboa a 16 de Janeiro de 1802. Nela foram inscritos 3 números de ordem, respectivamente 5647, 5808 e 5866, dois dos quais riscados, e que correspondem as três tentativas feitas para entregar a carta, a ultima das quais com sucesso, para encontrar o destinatário. Esta carta, que demonstra bem que existia um sistema de busca do destinatário de cartas não reclamadas e em depósito no Correio Geral, ainda não apresenta a marca CART. Não estamos em condições de afirmar que a letra «D», manuscrita ao lado da marca de porte seja a indicação do Distrito D de Lisboa, embora vários factores apontem nessa direcção.

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Figura 2

Veja-se agora a carta da figura 2. É dirigida a Lisboa, saindo de Portalegre a 8 de Março de 1803. É dirigida ao Sr. Roiz Camarate, tendo a particularidade de ter a inscrição manuscrita «Rua dos Confeiteiros».

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Figura 2.1

Esta inscrição, feita em Lisboa, constitui a prova de que precisávamos para demonstrar que de uma forma clara que no Correio Geral se inscrevia a morada do destinatário, tal como estava determinado no regulamento da pequena posta, permitir a entrega da mesma ao seu destinatário.

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Figura 3

Expedida de Portalegre a 10 de Fevereiro de 1803, terá chegado a Lisboa uns dias mais tarde, e lançada na lista. Como não foi reclamada iniciou-se o processo para encontrar o destinatário, com a marcação de um primeiro número (23579), e não tendo esta procura surtido efeito, foi-lhe de novo atribuído um outro número (23137), tendo desta vez sido encontrado o destinatário. O interesse desta carta reside no facto de, embora marcado muito ao de leve se pode ver no verso a marca CART, constituindo até hoje, a data mais antiga de utilização conhecida[5].

 

4. A marca CART

È num ofício de D. Rodrigo de Sousa Coutinho ao Correio Geral, datado de 29 de Janeiro de 1803, que pela primeira vez aparece referida o termo “Carteiro”, com o mesmo sentido e ofício dos “portadores de cartas” do Regulamento de 1801.

Em 1805 o volume de cartas reputadas perdidas era de tal modo elevado, que no próprio decreto já se legisla sobre o modo de proceder com as mesmas, depois de efectuadas várias tentativas para ser encontrado o seu destinatário (para se poder receber o porte). Cremos ser em data posterior a 1803, que entraram em funções os carteiros, cuja função era a de entregar as cartas não reclamadas aos seus destinatários, tentando receber o porte respectivo, tendo para esse efeito sido criada uma marca específica, o CART. Cremos também que foi abolida a taxa de entrega ao domicílio, e para tornar a cobrança mais apetecível, dava-se ao carteiro 40% do porte cobrado.

O rendimento deste sistema, ainda deixava muito a desejar, sobretudo porque se mantinha o sistema dos apartados, que só por si aniquilava qualquer tentativa por mais bem fundamentada que fosse. È bom lembrar que na lista dos apartados de 1821, constam os mercadores, oficiais, profissões liberais, nobres, etc., etc., portanto todos aqueles que deveriam receber o maior volume de correspondência. Como poderia o sistema de pequena posta ser rentável?

Na figura seguinte apresenta-se uma carta de 1805, escrita em Coimbra, e dirigida a Lisboa, assim como da ampliação do verso da mesma.

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Figura 4

Uma das características desta carta, que vale a pena referir, é a grande variação dos números inscritos, que vão desde 2714 até 6203, para o que ainda não encontrámos uma explicação.

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Figura 5

Ao terminar este período, vamos apresentar sob a forma de quadro as cartas que conhecemos com a aplicação da marca CART[6], para depois tentarmos tentar tirar algumas conclusões.

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Quadro 1

No que respeita à marca CART, parece haver duas variedades que se distinguem pelo seu tamanho assim como pela existência (fig.6) ou não do ponto depois do T. (figuras 4 e 7)

f6  f7   f4.1

                                              Figura 6                                                        Figura 7                                                     Figura 4

A terceira carta da lista que se apresentou merece algumas considerações. Trata-se de uma carta Franca, enviado portanto com o porte já pago. Como o destinatário não a veio reclamar, teve o mesmo tratamento de uma carta em regime de porte a pagar

Ainda da observação do quadro acima se pode verificar que existem dois períodos, 1805-1811 e depois 1814 -1817, onde não se conhecem, por enquanto, cartas com o CART. E se em relação ao primeiro período não temos dificuldade em admitir que as Invasões Francesas, deixando o país num estado caótico, foram eventualmente responsáveis pela suspensão das comunicações postais dentro do país, a que seguiu um período de profunda desorganização, já no segundo período pode-se simplesmente assistir ao nosso desconhecimento de material postal.

 

5. 1821. O início da posta diária em Lisboa

O ano de 1820 foi marcado por profundas alterações políticas que naturalmente tiveram influência nos diferentes serviços públicos entre os quais o correio. Um dos que se manifestou de uma maneira clara e incisiva, e deu a conhecer os seus pensamentos sobre o que entendia ser um bom desempenho dos Correios foi José Maria de Oliveira, numa série de artigos publicados entre Dezembro de 1820 e Janeiro de 1821 no jornal “O Português Constitucional”, Um dos pontos a que se refere com mais detalhe, deu o título «Como se pode estabelecer huma posta diária em Lisboa».

Embora seja uma leitura de grande interesse, pensamos que a sua transcrição está fora do âmbito deste trabalho, pelo que guardaremos a sua publicação para outra ocasião. Para já registem-se alguns dos pontos mais importantes do pensamento de José Maria de Oliveira.

1 – A determinado momento escreve, referindo-se à posta diária: “Não deixarão de admirar-se os habitantes de Lisboa, que tendo a seu cargo, e pagando com o seu dinheiro huma avultada somma que lhes sahe da sua algibeira, se vejão privadas de hum estabelecimento que há 20 anos podia estar feito.»

Se transcrevemos este ponto é para demonstrar que em 1820, um habitante de Lisboa e ainda por cima funcionário da administração do Correio Geral de Lisboa, refere a não existência (desde o início do século) do serviço da posta diária em Lisboa, tal como o afirmou Godofredo Ferreira, no que foi seguido por Andrade e Sousa. Quererá isto dizer, que de facto, a posta diária não existiu, ou que simplesmente a pequena posta, foi instituída e pouco depois desactivada por não rentável, dado que a população não ter aderido ao seu funcionamento e encargos. Perfilhamos a segunda, pelos argumentos e provas apresentadas atrás.

2 -Apartados. Em relação com este tema, diz José Maria de Oliveira: “ Como temos falado em apartados he nosso dever explicar o que isto seja. Apartado he um Amigo ou Protector de qualquer official do Correio, o qual paga por seus interesses, ou por cautela paga a este Official huma quantia pecuniária, ou valor idêntico anualmente para que este lhe tire as cartas da Lista, e lhas entregue em sua própria mão, ou de pessoa sua comissionada, e muitas vezes compromete-se o Official a manda-las a casa do seu constituinte por seu criado, ou Carteiro.”. Destes apartados existiam 2500 em meados de 1820.

Os pensamentos e propostas de José Maria de Oliveira tiveram receptividade na Direcção Geral dos Correios, pois que ao mesmo José Maria de Oliveira, além de ter sido nomeado Administrador da Posta Diária é dada a incumbência de elaborar o «NOVO ALMANAK PARA SERVIR Á POSTA DIÀRIA DE LISBOA», o que este fez e publicou, com uma introdução com data do Correio Geral de Lisboa em 24 de Agosto de 1821.

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Estamos agora em condição de continuar com a nossa deambulação pela década de 20. Se olharmos para a tabela apresentada atrás, verificamos que é justamente em 1821, ano do estabelecimento da posta diária em Lisboa, que deixam de aparecer as marcas CART (exceptuando a última carta do nossa lista, cuja data tem de ser confirmada), sendo no entanto conhecidas várias cartas idênticas ás anteriores, e até dirigidas às mesmas pessoas, mantendo-se os riscos mas não mais a marca CART, que só voltará a aparecer em 1834, o que levou Andrade e Sousa a colocar a questão já enunciada: «O que andou o CART a fazer entre 1821 e 1834?»

Ainda segundo Andrade e Sousa, a posta diária teve o seu início em 15 de Setembro de 1821[7], cuja regulamentação manuscrita foi descoberta por aquele ilustre historiador, e transcrito nos seus pontos mais importantes na já referida publicação.

Do nosso ponto de vista, e assim o avançávamos em 1986, “o início da posta diária, marca o fim da pequena posta, ou o que dela se conseguiu por em prática, assim como o fim da marca CART, pois que o carteiro, se passou a chamar «Portador ou Correio volante da posta diária», e a ter funções diferentes do seu colega anterior”.

Por ter incidência directa no que escreveremos de seguida, reproduzimos da 1ª secção os parágrafos 3 e 4, do projecto de Regulamento da Posta Diária de Lisboa.

1.§3 - Por este trabalho de se levarem as cartas a casa das pessoas a quem vierem dirigidas, pagar-se-há por cada carta seja de que peso e volume for mais 5 réis além do porte do correio e as de Lisboa pagarão os mesmos 5 réis sobre o seu actual porte de vintém.

1.§4 - Fica livre a toda a pessoa que não quiser pagar este augmento participar ao correio para que as suas cartas não vão à Posta Diária, e então serão lançados na Lista aonde os mandarão procurar, pois uma vez estabelecida a Posta Diária fica acabado o pernicioso systema de se apartarem cartas.

Relativos aos pontos atrás referidos mostram-se algumas inscrições postais que demonstram a vontade ou não por parte dos utilizadores de terem as suas cartas na Lista (Figuras 8, 9 e 10)

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Figura 8 (21.12.1830)

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Figura 9 (25.11.1822)

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Figura 10

A primeira das imagens refere a aplicação da sobretaxa de 5 réis da distribuição domiciliária, num dos dois exemplares até hoje conhecidos, e onde tal inscrição foi feita. Na segunda, a inscrição E do distrito de Lisboa, revela que a carta teria que ser levada, para o distrito E, e ser entregue ao destinatário, com morada identificada no Rossio. Por último, o destinatário não tendo querido pagar o porte adicional, pediu que a carta fosse para a lista, o que motivou a inscrição do distribuidor: «Quer na lista»

Voltando ao que escrevemos em 1986, dizíamos então:  “O CART não se aplicava nas cartas após 1821, pois que o seu uso estava ligado à cobrança de 40% do porte por parte dos carteiros, situação que terminou com o início da posta diária em Setembro de 1821. Quando em 1 de Janeiro de 1834 a distribuição domiciliária se tornou obrigatória, voltaram de novo a parecer os carteiros, para a procura das pessoas “das que não têm direcção” e a antiga marca voltou a ter utilização, aplicada na frente das cartas, em casos específicos que a seu tempo analisaremos.”

No quadro 2 apresentamos um resumo das situações onde conseguimos identificar a intervenção de um distribuidor de cartas.

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Quadro 2

Para um melhor entendimento do funcionamento da posta diária, registe-se agora o pensamento original de José Maria de Oliveira, sobre as quatro divisões das cartas a serem entregues em Lisboa.

1 - Cartas para serem entregues no Depósito Geral

2 - Cartas para serem entregues no Depósito dos Apartados

3 - Cartas apartadas para serem entregues pela posta diária, logo que cheguem.

4 - Cartas para serem entregues pela Posta diária quando os seus donos as não procurarão no depósito do Correio Geral

Cartas para serem entregues no Depósito Geral

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Cartas para serem entregues no Depósito dos Apartados

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Cartas apartadas para serem entregues pela posta diária, logo que cheguem.

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Cartas para serem entregues pela Posta diária quando os seus donos as não procurarão no depósito do Correio Geral

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Os textos que acabámos de transcrever, não são de abordagem fácil: Assim

O primeiro método refere-se aquelas cartas aquelas cartas que não contêm indicação que permitam a sua distribuição em casa, ou aquelas que por desejo expresso de destinatário vão para a lista.

O segundo método diz respeito a todas as outras cartas, isto é aquelas que são separadas (apartadas) para serem entregues pelo sistema da posta diária, cujo método é descrito no terceiro método.

O quarto método diz respeito a todas as cartas não reclamadas, e como se há-de proceder para a sua entrega.

 

Uma das manifestações mais visíveis da introdução da posta diária em Lisboa, são as inscrições que se podem ver nas cartas do 3º grupo, onde consta o endereço ou local da residência do destinatário, ou somente a identificação do distrito de Lisboa, feita por meio de letras do alfabeto, simples ou dobradas, correspondendo aos distritos do interior e exterior.

Como desde o começo do nosso coleccionismo nos interessaram as inscrições nas cartas, fomos acumulando ao longo dos anos algumas cartas que apresentavam uma inscrição diferente da anteriormente referida: apresentam um número, (a que chamaremos numero de distribuição) de que conhecemos os compreendidos de 2 a 6, sempre inscrito no canto superior direito da frente da carta. (figura 11)

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Figura 11

Nunca tentamos atribuir qualquer significado aos mesmos, para além do facto de manifestamente existirem, serem escassos os que se conhecem, serem repetitivos e a sua aplicação ter uma duração temporal limitada (1821 a 1834). O quadro das cartas por nós conhecidas actualmente (Setembro 2004) com os números é o seguinte:

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Quadro 3

As notas de rodapé números 10 a 13 significam que conhecemos outras cartas, da mesma época e dirigidas aos mesmos destinatários, com a inscrição do distrito mas sem números riscados no verso nem número inscrito na frente

Passemos a ilustrar algumas destas cartas.

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Figura 12 (com o nº 3)

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Figura 13 (com o nº6)

Verifica-se que algumas destas cartas têm números riscados, como no caso da carta da figura 13, carta que na época anterior teria o CART. Cremos estar agora em condições de responder à pergunta formulada por Andrade e Sousa.

Com o início da posta diária, desapareceram os Carteiros e as suas funções (deixando de se utilizar a marca CART), e as cartas do 4º grupo passaram a ser entregues a um Condutor da Posta Diária, provavelmente identificado por um dos números 1 a 6 (poderão haver outros números).

Após a introdução da posta diária obrigatória, em 1834, desaparecem os números de distribuição e volta o CART, aplicado agora na frente das cartas, como nos exemplos que se seguem.

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Figura 14

Carta da pequena posta de Lisboa, enviada sem morada que no Correio Geral foi identificada como sendo para um morador na Rua dos Capelista. Uma vez atribuída ao distrito AA, foi pelo carteiro posta a inscrição que se encontra na figura abaixo.

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Figura 14.1

«Mudou-se da rua das Capelistas, não xxx? para onde»

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Figura 15

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Figura 16

Inicialmente enviada para o distrito DD, para Praça das Amoreiras Nº48. Uma vez aí foi inscrito:

“Murreu têm administrador a casa às Pedras Negras nome Fedrico

Correio Geral    assinado Luiz”

 

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                                                                                                                Figura 16.1

E depois de ter sido enviado para as Pedras Negras:

“Às pedras negras não dou notícia

                                                                  Assinado Largo”

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                                                                                                 Figura 17 (10 Agosto 1834)

A escolha da carta da figura 17 para terminar este artigo não foi obra do acaso. O leitor reparará no número 13 inscrito no canto superior direito! Alguém pode ajudar à sua elucidação?

 

6. Conclusão

                Existe todo um trabalho a fazer sobre a distribuição domiciliária de correspondência em Lisboa, tendo como base o mapa que existe no Arquivo do MEPAT. Este mapa datado de 1826, mostra em detalhe os distritos do interior e os do exterior em que a cidade estava dividida, o que complementado pelas cartas que se conhecem com a indicação manuscrita do Distritos, permitirá dar uma imagem do que foi este importante serviço público prestado pelo Correio. É este um tema que pretendemos desenvolver, logo que nos seja facultada uma cópia do referido mapa.

 

 

 

Bibliografia.

1- CART Alguns passos no sentido da sua identificação. L. Frazão E.V. Nº15 Abril 1981

2 - CART= Carteiros * João Gonçalves Novo, F.N. Nº16 Setembro 1982

3 - Esclarecendo a leitura da marca postal CART Andrade e Sousa F.N Nº23 Abril 1983

 



[1]

[2]“ O almanack de 1803 apresenta algumas indicações de números, mas não em toda a parte....”

[3] Este plano estava a ser posto em prática pouco antes da partida de S. Majestade para o Brasil.

[4] As cartas do Ultramar e Ilhas são reguladas desde 20 de Janeiro de 1798, pelo Decreto dos Correios Marítimos.

[5] Sem querer abusar da sorte, não deixamos de registar que esta carta é posterior nuns escassos 10 dias à ordem de 29 de Janeiro autorizando o pagamento de um salário aos Carteiros.

[6] Uma vez mais se apela aos possuidores de cartas que nos façam saber dados que permitam actualizar este quadro, no sentido de uma melhor actualização dos nossos conhecimentos sobre este tema.

[7] Manuel Andrade e Sousa. A distribuição domiciliária de correspondência (pag.18) Ofício de José Maria Oliveira a José Barreto Gomes. Edição dos CTT 1976.

Actualizado em Quarta, 16 Setembro 2009 22:44
 

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