CFP

Clube Filatélico de Portugal

Open Class * A Maçonaria na 1.ª República PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Pedro Marçal Vaz Pereira   
Quarta, 16 Setembro 2009 23:40

 

OPEN CLASS - A MAÇONARIA NA 1ª REPÚBLICA

                                                                                                                                                              Pereira

 Pedro Marçal Vaz Pereira

 

Origens

A Maçonaria tem a sua origem no século XVIII em Inglaterra, baseada nas ideias do Iluminismo e da procura da razão. Funda-se na unidade dos dois poderes do século XVIII, o espiritual e o temporal, o primeiro ligado à igreja e o segundo ao suserano ou senhor, poderes estes que subordinavam todos os homens.

As lojas maçónicas surgem em Inglaterra no século XVIII, tendo–se reunido numa só Grande Loja Maçónica. A partir de Londres a maçonaria iria espalhar-se por toda a Europa, tendo chegado a Portugal em meados do século XVIII, mais propriamente entre 1735 e 1743.

As lojas maçónicas inglesas como a Grande Loja de Londres, têm origem nas comunidades de pedreiros profissionais, que eram uma autêntica corporação daquela classe. Estas corporações, transformadas em “ lojas” agregavam inicialmente os operários de cada uma das classes. Porém, estas “ lojas “ também poderiam estar ligadas às confrarias, que integravam os frades e leigos.

O movimento dos pedreiros proporcionou que aqueles fundassem “ lojas “ em vários locais e que estas contactassem entre si, trocando os ritos. Nestas “ lojas” desenvolvia-se uma actividade social importante, onde os termos “ mestre”, “ companheiro” e “ aprendiz” eram utilizados, definindo graus de sócio e os sinais porque eram conhecidos.

O Professor Oliveira Marques, ilustre historiador e filatelista, é de opinião que a primeira loja maçónica foi fundada em Lisboa por comerciantes ingleses em 1727, tendo sido registada pela inquisição como “ A Loja dos Hereges Mercantes “.

f1 
Fig. 1 – Apostilha do 6º Grau
 

A “ Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitânia “ foi a segunda loja a ser constituída em Portugal e integrava uma grande maioria de irlandeses.

A Maçonaria de influência protestante foi proibida em quase todos os países europeus católicos, sendo acusada de heresia ao promover a superioridade do protestantismo em relação ao catolicismo. Alguns portugueses iniciaram-se na loja maçónica de John Coustos, ourives inglês, que fixando residência em Portugal, viria a fundar aquela no ano de 1741.

f2 
Fig. 2 – Verso da Apostilha do 6º Grau
 

D. João V viria a promulgar um decreto em 1742, o qual ilegalizava a Maçonaria e condenava à morte os seus membros. A inquisição viria a ter um papel importante nos julgamentos e condenações dos maçons, sendo esta acção contra a Maçonaria completamente apoiada por bulas papais, que procuravam eliminar aquele movimento.

 

Devido a estas perseguições as lojas maçónicas e os seus membros seriam obrigados a ter uma existência e ritos secretos, ideia em relação à Maçonaria que ainda hoje se mantém. Durante o reinado de D. José I e por influência do Marquês de Pombal, as lojas maçónicas eram aceites, mas com a subida ao trono de D. Maria I e o aparecimento do Intendente Pina Manique, a perseguição à Maçonaria viria a tornar-se de novo implacável, obrigando muitos ilustres portugueses a exilarem-se e condenando muitos outros.

 

No final do século XVIII, princípios do XIX, a orientação espiritual da Maçonaria era agnóstica e anti-tradicionalista, baseada no Grande Oriente de França, continuando em Portugal secretos os seus ritos. No início do século XIX realiza-se uma importante reunião maçónica em Lisboa, onde se decide fundar uma Grande Loja ou um Grande Oriente.

Em 1802 é reconhecida em Londres a Maçonaria Portuguesa e inicia-se a formação do Grande Oriente Lusitano, o qual é fundado no ano de 1804.

 

 

                A República e a Maçonaria

A “ Carbonária” era uma sociedade secreta de cariz político e teve sempre um papel relevante na luta anti-clerical e anti-monárquica. Esta sociedade introduzida em Portugal em 1822, desaparece por um longo período de tempo, reaparecendo em 1896, através da Maçonaria Académica, vindo a ter um papel preponderante na implantação da República em 5 de Outubro de 1910.

A Maçonaria Académica, tal como o nome diz, era uma congregação de estudantes maçónicos. A “ Carbonária” era basicamente composta por maçons que eram ferozmente anti-clericais e anti-monárquicos. Esta viria a estabelecer sólidas ligações com a Maçonaria e através dela é realizada junto dos maçons uma sólida propaganda dos ideais republicanos.

Na implantação da República, em Outubro de 1910, a “ Carbonária “ teria em Portugal mais de 40.000 militantes, fruto de uma total decadência do regime monárquico. Esta organização e o Partido Republicano estariam por detrás do assassinato em 1910 do rei D. Carlos I e do príncipe regente D. Luís Filipe, sendo Machado Santos um dos chefes da “ Carbonária” e um dos grandes líderes do movimento republicano do 5 de Outubro de 1910.

 

A Maçonaria em Portugal era integrada normalmente por um grupo elitista, que muitas vezes significava a extensão das políticas de um partido e era apenas o meio de promoção e divulgação dessas ideologias.

A Maçonaria e os ideais republicanos de índole progressista viriam a aproximar-se e seriam importantes no derrube da monarquia em Portugal. Vários centros republicanos seriam constituídos por todo o país e normalmente tinham como seus dirigentes ilustres figuras políticas ligadas à Maçonaria.

 

As duas grandes lojas da Maçonaria durante a República “O Grande Oriente Lusitano Unido” e “O Grémio Luso-Escocez”.

Como já atrás disse o “Grande Oriente Lusitano” tinha sido fundado em 1804. Contudo seria esta grande loja maçónica unificada com outras dando origem em 1869 ao “ Grande Oriente Lusitano Unido “.

f3   f3v

Fig. 3 – Diploma de iniciação  e o verso deste . Esta iniciação deu-se na “ Oficina 285 – CAP .   .  Redenção “. O rito de iniciação demorava quase um dia e os iniciados tinham que se submeter a vários ritos, como por exemplo tapar os olhos numa antecâmara escura com duas vendas, sendo uma completamente opaca e uma outra que deixava passar a luz e que, uma vez retirada a opaca, deixava passar a luz, significando o Oriente, o iluminismo do espírito.

Esta grande loja teve a sua origem na unificação da “ Grande Loja Portuguesa”, da “ Confederação Maçónica”, da “ Loja Provincial do Oriente Irlandês “ e de muitos “ Orientes “, mais de 80, que existiam nessa altura em Portugal. Com a República implantada, assiste-se à influência da Maçonaria na vida e organizações republicanas.

Os  maçons  ocupam cargos importantes e uma grande maioria integra os governos republicanos e o parlamento, sendo que três presidentes da república eram maçons, casos de Bernardino Machado, que no século XIX já tinha sido Grão Mestre, Sidónio Pais e António José de Almeida.

Contudo o Partido Republicano e a Maçonaria, mais propriamente o Grande Oriente Lusitano Unido” , estariam demasiadamente próximos sendo o Grão Mestre Magalhães Lima amigo pessoal de Afonso Costa ,, chefe da ala esquerdista do Partido Republicano, tendo o “ Grande Oriente Lusitano Unido” dado o seu total apoio a Afonso Costa, quando se deu em 1911 a grande divisão republicana e aquele se separou de António José de Almeida e Brito Camacho. Com este processo a Maçonaria ficaria também dividida já que a maioria das lojas maçónicas apoiava o Partido Republicano ou Democrático.

Em 1914 dá-se então a grande divisão da Maçonaria Portuguesa. O Conselho Superior do Grau 33 separa-se do Grande Oriente Lusitano e forma o “ Grémio Luso-Escocês”, elegendo o General Augusto Ferreira de Castro como “ Soberano Grande Comendador “.

O “ Grémio Luso Escocês “ viria a apoiar de imediato Sidónio Pais no seu golpe militar contra Afonso Costa e o Partido Democrático e apoiando dessa forma a ditadura constituída.

Em 1926 dá-se a conciliação da Maçonaria portuguesa, sendo então efectuada a reunificação do “ Grémio Luso-Escocez “ e do “ Grande Oriente Lusitano “.

A ditadura do Estado Novo que se avizinhava a isso obrigou, tendo os maçons de início realizado várias acções contra a nova ordem, mas com a repressão bárbara que se seguiu a Maçonaria em Portugal quase que desapareceu, ficando reduzida a algumas lojas que funcionavam todas na clandestinidade.

 

A Constituição do Grande Oriente Lusitano Unido

As grandes lojas maçónicas tinham as suas próprias regras organizacionais de funcionamento a que davam o nome de “ Constituição “.

O “ Grande Oriente Lusitano Unido “ também tinha as suas, que se baseavam no Rito Escocês e no Rito Francês Moderno. Dentro do “ Grande Oriente “ existiam lojas autónomas onde em cada uma delas se praticava cada um destes ritos. O “ Grande Oriente Lusitano Unido” tinha como princípios o seu altruísmo e não subordinação a nenhuma escola, facção filosófica, política e religiosa, sendo ainda tolerante, progressiva e ritualista. Era sua prerrogativa possuir emblemas e sinais, cujo significado simbólico só podia ser revelado após a iniciação.

f4 
Fig. 4 – Apostilha do 5º Grau, assinada pelo Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa Sebastião de Magalhães Lima.
 

À Maçonaria eram admitidos iniciados, os maçons, que se encontravam agregados em “ Oficinas” e que se tratavam por “ irmãos”. Importante era o princípio que nenhum rito poderia aspirar à supremacia sobre outro qualquer.

Mas mais importante ainda é quando no artigo 7º da Constituição do Grande Oriente era proibida nos seus trabalhos discussões sobre assuntos de religião e política partidária, mas eram admitidas análises de política geral e discussões filosóficas e da história das religiões.

Se tivermos em consideração a cisão que se deu em 1914 na Maçonaria portuguesa, poderemos entender que essas discussões, embora de política geral, seriam também baseadas em ideologias partidárias.

No “ Grande Oriente Lusitano Unido” eram admitidos maçons  de ambos os sexos, mas tinham que ser maiores de 21 anos ou emancipados, tinham que ter bons costumes, mas “ categoria social compatível com a Instituição”, reputação irrepreensível, “ instrução necessária para bem compreender e honrar os fins da Ordem “. Havia na realidade uma selecção elitista na admissão de maçons, daí que o seu número nunca tenha sido grande.

As “ oficinas” compunham a base da Maçonaria. Eram designados “ Triéngulos “ quando o número de “ irmãos” que a constituíam era inferior a 7, mas existindo sempre 3 cidadãos com o grau de Mestre. Era uma “ loja” quando era composta pelo menos por “ 7 obreiros decorados com o grau de Mestre “.

Existiam ainda um conjunto de lojas designadas por “ Comuns ou Simbólicas”, “ Capitulares”, “ Arcopegitas”, “ Consistoriais” , obedecendo todas elas a um conjunto de regras ligadas ao número e categoria dos seus membros e ritos aí praticados, conferindo cada uma delas diferentes graus maçónicos.

A “ Grande Dieta “ era a assembleia dos representantes do povo maçónico e cada loja elegia anualmente o seu representante à “ Grande Dieta “. Um aspecto interessante refere-se ao facto de não serem permitidas lojas compostas por cidadãos de uma só classe social.

A soberania reside no “ Povo Maçónico” cujo poder legislativo está atribuído à “ Grande Dieta “. O Grão Mestre da Ordem tinha a seu cargo o poder executivo.

Dentro da Maçonaria existia ainda um poder judicial, que era exercido em tribunais maçónicos de primeira instância, que funcionavam junto de cada loja e em recurso pelo “ GR  TRIB  MAÇ  FED “, que era composto por 7 membros eleitos trienalmente pela “ Grande Dieta “.

 

O Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito

Esta grande loja maçónica, que seguia o Rito Escocês, esteve federada ao Grande Oriente Lusitano desde 1869, tendo aquele por esse motivo passado a designar-se por “ unido”, altura em que como atrás dissemos se deu a grande unificação das muitas lojas maçónicas numa só.

O “ Supremo Conselho “ era quem detinha o poder do governo de toda a Maçonaria que em Portugal seguia o “ Rito Escocês Antigo e Aceito”, tendo o poder de conceder os graus 19º ao 33º. Os cargos de “ Soberano Grande Comendador” bem como outros eram trienais.

O “ Supremo Conselho” tinha como principal tarefa “ velar pela glória da Maçonaria em geral e esplendor do rito escocês antigo “. Cabia-lhe ainda tarefas legislativas, a concessão do Grau 33º, máximo a poder ser concedido, inspeccionar as “ oficinas” escocesas, instaurar processos, enfim cabia a este Supremo Concelho a coordenação e governação de todas as lojas de rito escocês, o que demonstrava claramente que no Grande Oriente Lusitano Unido existiam de facto dois ritos claros e autónomos, o escocês e o francês.

A exemplificar o que acabo de dizer, os membros e as “ Oficinas Superiores “ do Rito Escocês só podiam ser julgados pelo Supremo Conselho e ainda a Grande Loja só podia alterar a Constituição no que dizia respeito ao Rito Francês, já que quanto ao Rito Escocês, tal lhe estava vedado, sendo tal tarefa da estrita competência do Supremo Conselho.

f5 

Fig. 5 – Opúsculo de protesto do Rito Escocês, contra o Grande Oriente Lusitano Unido e que levaria  à cisão da Maçonaria Portuguesa em 1914. Este opúsculo foi distribuído a todas as lojas maçónicas em 1913.

 

Em 1913 estava instalado o descontentamento dentro da Maçonaria, já que os maçons do Rito Escocês consideravam que estavam a ser desautorizados, existindo uma clara corrente para que o Rito escocês voltasse a assumir a sua autonomia.

Entretanto estava a realizar-se em 1913 uma nova Constituição do Grande Oriente Lusitano Unido, que não respeitava o Rito Escocês. Nesse mesmo ano o Supremo Conselho decidiu:

“ 1º - Votar em princípio a autonomia do Rito Escocês Antigo e Aceito.

                   2º - Tornar efectiva esta deliberação logo que por Constituição a promulgar se cerceiem os direitos históricos do Supremo Conselho do GR 33 ou, as do

          Rito Escocês Antigo e Aceito em Portugal.“

O Rito Escocês entendia que o Grande Oriente Lusitano Unido não era uma fusão de ritos, mas sim uma federação de ritos e não havendo respeito pelos dois ritos, então deveriam os dois separar-se e voltar a ser autónomos. Conforme atrás disse o Rito Escocês abandonou o Grande Oriente Lusitano Unido em 1914.

Em 1913 a Maçonaria Portuguesa estava dividida nos seguintes ritos:

RITO ESCOCEZ ANTIGO E ACEITO

Supremo Conselho do Grau 33                   1

Consistórios                                                       4

Areópagos                                                        6

Capítulos                                                         26

Lojas                                                                101

Triângulos                                                        57

RITO FRANCEZ MODERNO

Soberano Grande Capítulo                          1

Capítulos                                                            8

Lojas                                                                 32

Triângulos                                                        28

RITO SIMBÓLICO

Lojas                                                                     1

RITO DE YORK

Lojas                                                                     1

Como se pode ver o Rito Escocês encontrava-se em maioria.

 

Sebastião Magalhães Lima

Este ilustre republicano e jornalista foi Grão Mestre da Maçonaria portuguesa entre 1907 e 1928, estando a vigência do seu mandato ligado a todo o período da 1ª República Portuguesa.

f6                 f7
Fig. 6 e 7 – Sebastião Magalhães Lima, Grão Mestre da Maçonaria durante a 1ª República Portuguesa .
 

Eleito Grão Mestre com o apoio da “ Carbonária “, foi deputado às constituintes de 1911 e nomeado Ministro da Instrução Pública corria o ano de 1915. Ilustre combatente dos ideais políticos republicanos e defensor dos direitos dos trabalhadores, é um dos intervenientes do movimento do 5 de Outubro.

 f8
 Fig. 8 – Carta com vinheta da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos, com a figura de Magalhães Lima,
que foi o seu primeiro Presidente
 

Fundou os jornais “ O Comércio de Portugal “ e “ O Século”, tendo neste último desenvolvido uma notável actividade política. Nasceu em 30 de Maio de 1850 e morre em 7 de Dezembro de 1928 .

 

 

Lisboa, 21 de Setembro de 2004-09-21

 

 

Actualizado em Quarta, 16 Setembro 2009 23:42
 

Procura

Temas Relacionados

 
Joomla 1.5 Templates by Joomlashack